Reflexões sobre Comunicação, Cultura e Ética

Se não estamos alarmados  com o quadro que o mundo atual oferece, provavelmente estamos mal informados. Apesar do admirável e incomparável progresso científico que, só no século passado, nos legou avanços como a biologia molecular, a medicina nuclear, a engenharia genética, o raio laser, os computadores, os celulares, os satélites, os robôs, as fibras óticas, a televisão, a Internet, etc., etc., jamais nos defrontamos com cenários de tanta indefinição e insegurança.  Nossa civilização ocidental – pináculo de todo esse progresso material – é tão cruel como qualquer outra,  islâmica, confucionista, hinduísta etc..  O século XX viu a morte de milhões de pessoas, em duas grandes guerras e em inúmeros conflitos étnicos, políticos e religiosos. O que ficou muito claro nesse drama todo é que os “aliados”, particularmente Estados Unidos e Inglaterra, adotaram uma estratégia de ganhar guerras matando civis – não soldados ! Na Alemanha, cidades não militarizadas como Dresden, Hanover, Colônia, entre tantas outras, sofreram pesados bombardeios intencionais, que destruíram bairros inteiros e ceifaram centenas de milhares de vidas de civis, porque essa foi a forma que “as forças do bem” encontraram para indispor o povo contra Hitler e minar a capacidade dele de controlar a situação. Nagasaki e Hiroshima, cada uma com mais de 100.000 mortos (todos civis!), são outras evidências dessa orientação demoníaca.  Ao destruir os arrozais vietnamitas com o “agente laranja”, condenava-se o povinho – não os vietcongs – a morrer de fome.  Ao queimar vilas inteiras com o napalma, repetiam-se as manifestações de total desrespeito pela vida (alheia, é claro!).   Mais de 50.000 civis morreram no Iraque, vítimas de bombardeios conduzidos pela tecnologia “state-of-the-art” de matança indiscriminada.  E, como todos sabemos, com base em mentiras deslavadas, que elevaram G.Bush e T. Blair ao patamar dos grandes criminosos de guerra.

Mas não é só crueldade que marca a civilização ocidental, impropriamente chamada de “cristã”.  Hipocrisia generalizada, que faz da mentira parte integrante do estilo de vida;  materialismo exacerbado, que cria classes sociais com base em níveis de renda e reconhece como “elite” os mais ricos, seja qual for a origem de seus bens; corrupção endêmica, em todos os campos de atividade (política, religião, empresas, esportes). Também nesses itens somos iguais ou piores de que todas as outras civilizações.

Por outro lado, uma das principais colunas de sustentação da sociedade ocidental – tão rica e, ao mesmo tempo, tão cheia de contrastes – que é o PODER ABSOLUTO, está em fase de desmoronamento.  O autoritarismo dos pais cedeu lugar à insegurança no relacionamento com os filhos, gerando insegurança também para estes.  As relações entre professores e alunos se alteraram profundamente com o fim do “magister dixit”, isto é, “se o professor falou, está falado”!  A autoridade indiscutível dos líderes políticos e religiosos está em franca decomposição: “Roma locuta causa finita”, ou seja, “quando Roma fala a questão está resolvida” já não é mais verdade.  E quanto aos políticos, o conceito que impera é o contido na afirmação do jornalista Mauro Chaves: “Os nossos políticos são como fraldas.  Precisam ser trocados com frequência e sempre pelo mesmo motivo”.

O que nos espera nos próximos anos ?  Vejo três caminhos:

  1. a desordem total, a anarquia dos que “não acreditam mais em coisa nenhuma” e esse é o terreno fértil para as drogas, a violência, a corrupção desenfreada, o abandono dos valores espirituais;
  2. um retorno dos movimentos de extrema direita, em conluio com o fundamentalismo religioso: neo-fascismo, neo-nazismo, neo-farisaismo e assemelhados.  Mas o que mais me preocupa, neste segundo cenário, é o fanatismo do governo da maior nação do mundo, que administra um arsenal de 6.000 ogivas nucleares e um programa de gastos militares que custam US$ 800 bi por ano. Tudo isso em paralelo com o calamitoso corte de verbas para educação e assistência médica dos mais pobres, que existem em abundância na sociedade norte-americana, como o drama de Nova Orleans mostrou e — acredite se quiser – com cortes nos impostos das empresas, entre as quais as maiores do mundo;
  3. a opção pela ÉTICA, tomada em seu sentido mais puro, menos acadêmico, que é o respeito pela vida, pelo próximo, e pela busca da FELICIDADE – eleita por Aristóteles, alguns séculos antes de Cristo, como a finalidade maior da própria ÉTICA.

Infelizmente, ÉTICA é um dos conceitos mais vulgarizados em nossos dias.  Desde quando poluir o ar que respiramos ou a água que bebemos é uma questão de ÉTICA ?

O animal que faz isso não é antiético, é um imbecil ! Também não basta cumprir, ainda que com todo o rigor, todas as leis do País para que uma pessoa ou empresa possa ser considerada ética.  A ÉTICA  começa com o cumprimento das leis mas vai muito além e muito acima, para configurar o tipo de pensamento permanentemente voltado para “como fazer melhor” em todas as situações da vida. Por isso, a INOVAÇÃO é um princípio ético e, sem ele, estaríamos na Idade da Pedra.

São três cenários muito diferentes mas reais, não teóricos. O primeiro, o da anarquia, é sinônimo de inferno, porque nenhuma pessoa de bem consegue viver nele. O segundo, o extremismo de direita religiosa, é uma volta aos períodos mais obscuros da História, que teve seu ápice na chamada Santa Inquisição, na qual os corpos eram horrivelmente torturados e queimados para garantir a salvação das almas … E o terceiro, o da ÉTICA, é a esperança de uma escala de valores muito diferente, construída em torno da FELICIDADE e do bem comum.  No domínio da ÉTICA, cada um constrói o seu próprio mundo e as iniciativas cabem a cada um de nós, independentemente do que fazem ou vão fazer os chefes, os professores, os líderes religiosos, os governos. E não estamos falando de utopias. Basta lembrar o pensamento de M. Gandhi:

A diferença entre o que estamos fazendo e o que podemos fazer é tão grande que dá  para resolver a maior parte dos problemas do mundo.

Lelio Lauretti perfil

Lélio Lauretti

Economista, com cursos de especialização em Mercado de Capitais (Fundação Getúlio Vargas – S.Paulo) e Administração para Sócios-Presidentes (Harvard Business School – Boston). Sócio-fundador e professor do Instituto Brasileiro de Governança  Corporativa.