Gestão, Ética, Governança.

Gestão empresarial no estado da arte + princípios éticos = governança corporativa. Ou melhor, a governança corporativa não veio para dispensar ou substituir a gestão empresarial. Ao contrário, quanto mais elevado for o nível de gerenciamento em uma empresa ou organização, mais fácil e mais bem-sucedida será a transição para o “andar de cima”, que é a governança corporativa.

Como consideração preliminar, podemos admitir que as mudanças ocorridas nos últimos dois séculos de história foram mais decisivas e marcantes do que tudo que aconteceu nos séculos e até mesmo milênios que os antecederam. No campo específico da atividade empresarial, basta lembrar os trabalhos pioneiros de Taylor, Fayol, J.P. Morgan, Rockfeller etc., o surgimento das melhores escolas de administração do mundo nos EUA e na Europa, não esquecendo o Brasil com Fundação Getúlio Vargas, Universidade de São Paulo, Fundação Dom Cabral e mais recentemente o IBGC, para entendermos como chegamos à gestão empresarial no estado da arte, isto é, preparada para incorporar princípios éticos e converter-se em governança corporativa.

O que muda nessa nova fase da economia mundial?

Vamos, em primeiro lugar, lembrar que não mais trabalhamos com a ideia de que as empresas são função do capital financeiro. Falamos agora em outros capitais, como o intelectual, o manufaturado, o de relacionamento, o tecnológico, o ambiental, o político e, ainda mais importante, o capital humano. Temos que trocar a declaração do Nobel de Economia, Milton Friedman (por volta de 1950), de que “a finalidade da empresa é gerar riqueza para os sócios”, por “a finalidade da empresa é gerar riqueza para todos os capitais nela investidos, especialmente o humano”.

Em segundo lugar e como consequência, a governança corporativa institucionalizou o precioso conceito de “parceria” ao adotar a figura de stakeholders(tomadores de risco) para todos os investidores, diretos (sócios) ou indiretos (clientes, fornecedores, empregados, credores, governos). Ou seja, se todos eles são tomadores de risco, é bom para todos que a empresa seja um sucesso, porque será um desastre se acontecer o contrário. A expressão “partes interessadas” não tem esse alcance, por ser muito passiva e não refletir a realidade da assunção de riscos. Torcedores de futebol, espectadores no teatro, ouvintes de uma palestra são bons exemplos de partes interessadas.

Em terceiro lugar, os princípios éticos eleitos pelos códigos de governança precisam estar fundamentados na criação de uma cultura ética na organização. Nada de transcendental, porque o que se busca é criar e manter um ambiente de trabalho alicerçado na confiança, no respeito e na solidariedade.

Dessa forma, como associar os princípios éticos do Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa do IBGC às virtudes da confiança, respeito e solidariedade? 

Fácil: transparência e prestação de contas ajudam a construir o clima de confiança – único caminho para a existência de relações duradouras; a equidade envolve o respeito pelos direitos alheios e esse respeito deve ser ampliado quando o seu sujeito são as minorias no plano social e os minoritários, no plano empresarial. Finalmente, o princípio da responsabilidade social induz à solidariedade “lato sensu”, porque envolve todas as formas de relacionamento, como homem/natureza ou entre grupos humanos. O papel mais ativo da solidariedade é substituir o “homem econômico” (praticante da Lei de Gérson) pelo bem comum.

Chegamos, assim, ao terceiro valor de nossa equação de abertura, que é a governança corporativa. Ela tem dois objetivos bem claros:

  1. A sustentabilidade e perenidade das organizações;
  2. A sua incorporação ao conserto mundial na procura do bem comum.

Nem poderia ser diferente! Estamos, pela primeira vez na história da civilização, vivendo em um mundo conectado, na tal “aldeia global” com a qual sonhava Marshall McLuhan. Por isso, estamos todos aparelhados para conhecer tudo o que se passa no resto do mundo, mas as conclusões são ainda sombrias. Até vinte anos atrás, 6 bilhões de pessoas eram dominadas por 700 milhões (EUA + Europa). Hoje, com o crescimento acelerado de países do Oriente, com destaque para China e Índia (mais de 6% ao ano), temos um contingente de 2,5 bilhões (1/3 da população global) com capacidade de alterar as condições de equilíbrio anteriores. Ademais, os problemas que a própria civilização criou, especialmente com relação ao meio ambiente e distribuição de renda, só podem ser equacionados pelo esforço conjunto de todos os países envolvidos. Ou algum deles poderia assumir sozinho a gigantesca tarefa de despoluir os mares ou controlar as ondas de refugiados?

A governança corporativa tem missões de extrema relevância, dentre as quais:

a) dotar as empresas de estruturas de planejamento (conselho de administração), execução (diretoria) e acompanhamento (conselho fiscal e auditorias) de primeira categoria, em termos de eficiência e alcance;

b) exercer sobre as empresas uma corajosa influência para que as decisões econômicas não colidam com o bem comum. Nesse ponto, é assustador comprovar que certos truques do marketing conseguem impor à sociedade coisas tão estapafúrdias como:  (i) a marca ser mais importante do que o produto; (ii) ganhar o mais possível para poder gastar o mais possível; (iii), fazer tudo para “aparecer”, porque estamos vivenciando  a “civilização do espetáculo”, tão bem analisada por Mario Vargas Llosa: vale mais o que aparece mais, tanto assim que um apresentador de TV ganha o que ganham centenas de professores; (iv) na área da comunicação, dar preferência ao mal como notícia, contribuindo, assim, para a crença muito generalizada de que o mundo é habitado apenas por malfeitores; (v) exibir alto padrão de vida por meio do desperdício que, além de irracional, é uma ofensa aos menos favorecidos (poucos vão lembrar-se dos milhares de pares de sapato da Imelda Marcos).  Basta lembrar que 1/3 dos alimentos produzidos no mundo são literalmente “jogados fora” nos restaurantes, supermercados e residências; (vi) criar produtos prejudiciais à saúde, mas que conseguem viciar adolescentes e jovens.

Em lugar do quadro acima descrito, devemos redirecionar esforços no terreno da governança corporativa para: (i) desenvolver a ciência sempre na direção do bem-estar coletivo; (ii) aposentar a ideia de que classe alta é sinônimo de muito dinheiro; só reconhecer como “classe alta” o contingente  de pessoas de bem, em qualquer segmento ou atividade, que trabalham para a construção de um mundo melhor; (iii) evitar que a “transferência de valor” ocupe o lugar da “criação de valor”, ou seja, que todos os nossos esforços terminem por beneficiar um único capital – o financeiro; (iv) valorizar, em nossas organizações, a começar pelas empresas, o conceito de que rentabilidade, crescimento, progresso, podem conviver muito bem com simplicidade – degrau mais alto da escada da sabedoria – no estilo de vida e na redução substancial das injustiças sociais.

O que se tem produzido no campo regulatório, nos últimos anos, está na casa dos milhões de leis e normas que serão totalmente inúteis se não houver respeitopor elas. Isso se aplica também à governança corporativa, que pode ser confundida com compliance, do qual a gestão pode cuidar muito bem.  É um caminho sem volta: será um enorme erro imaginar que leis, códigos, políticas, regulamentos etc. possam gerar uma sociedade mais justa e humana. A grande missão da governança corporativa será  inspirar os tomadores de decisão para que as empresas usem seu poder de influência nas mudanças em curso sempre na direção do bem comum. Lembrando Victor Hugo: “Nada é tão irresistível quanto uma ideia cujo tempo chegou”. E essa ideia, seja na governança corporativa ou em qualquer outra área de conhecimento ou atividade, se chama Ética.

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Lelio Lauretti perfil

Lélio Lauretti

Economista, com cursos de especialização em Mercado de Capitais (Fundação Getúlio Vargas – S.Paulo) e Administração para Sócios-Presidentes (Harvard Business School – Boston). Sócio-fundador e professor do Instituto Brasileiro de Governança  Corporativa.