Ética e lógica no pós-crise

Com dois doutores-professores ao meu lado, Angela Donaggio e Carlos Eduardo Lessa Brandão, participei recentemente de um webinar promovido pelo IBGC e coordenado por Marilza Benevides, sobre o tema “A ética e a lógica no pós-crise: o que muda?”  Embora o tema “crise” esteja sempre presente em nossas telas e jornais, procuramos fazer uma abordagem mais ampla e não repetitiva, focando nas macrotendências de médio e longo prazo. 

Registro, a seguir, pontos que destaquei em minha apresentação e que pretendem escapar ao lugar comum.

Segundo estimativas confiáveis, o mundo caminha para uma população de cerca de 8 bilhões no final desta década e de 9 a 10 bilhões por volta de 2050. Hoje, China, Índia e África já representam 52% daquele total e, com provável alteração na ordem de grandeza (1- Índia, 2 – China e 3 – África), esses países continuarão a ser o grupo majoritário.  A conclusão inevitável é que um mundo dominado pelos países do Ocidente (EUA, Canadá e Europa) não terá mais o apoio da lógica, já que estes abrigam apenas 10% do total.  Se correlacionarmos tamanho do mercado interno com capacidade de crescimento econômico, já podemos imaginar “para onde caminha a humanidade”!

Em paralelo com essas projeções, devemos reconhecer que um dos mais notáveis   progressos tecnológicos deste século é a sociedade em rede, interconectada, na qual temos também, como conquista de primeira grandeza, que a maioria (em números) será também a maioria em poder político. Em consequência, o conceito de países do “primeiro mundo” e de subdesenvolvidos passará também por profunda alteração.

O novo panorama demográfico inviabilizará outra situação que vivemos há séculos: a hegemonia de um único país. Isto vem dos césares:  não esquecer o “Roma locuta, causa finita” (César falou, assunto encerrado).  Desde o final da II Grande Guerra, em 1945, essa hegemonia vem sendo exercida pelos EUA, tanto no aspecto militar, como no econômico e no cultural.  A capacidade de poder imprimir uma moeda fiduciária, de aceitação mundial, representa uma fonte praticamente ilimitada de recursos e uma vantagem que nenhum outro país pôde ainda alcançar. Não é por outra razão que o anunciado lançamento, pela China, de uma criptomoeda com garantia do país está tirando o sono de muita gente…

Não antevejo alternância nessa hegemonia, mas uma pura e simples substituição por um mercado em que haverá grandes nações, sem que nenhuma delas possa se sobrepor às restantes. A hegemonia dará lugar a diferentes lideranças em variados setores. O Brasil, para exemplificar, continuará a liderar a produção mundial de alimentos, com benefícios para sua própria economia e para o resto do mundo. As novas lideranças não deverão sequer cogitar da capacidade de destruir, hoje ainda reconhecida como traço de superioridade. Voltando aos EUA e sem preocupações de ordem política, devemos lembrar que, em 1945, o país detinha 50% do Produto Mundial.  Hoje, essa participação é de 15%, com tendência para continuar caindo, com a agravante de que manter uma rede mundial de mais de 800 bases militares, além de um estoque impressionante de armas (a começar por 6.000 ogivas nucleares)  implica a necessidade de gastos anuais, impropriamente batizados de “defesa”, de mais de 700 bilhões de dólares, quase metade do total gasto no mundo todo.  Uma análise bem fria dessa dependência aponta o risco de desaparecimento gradual de um mercado de muito peso na economia do país, pelo abandono do produto. Por falar em “ministério da defesa”, será que algum de nossos leitores conhece algum “ministério do ataque”?

Outra resultante dessa expectativa de mudança é a consagração da cooperação mundial em ampla escala, não por finalidades ideológicas, mas como imperativo para redução da brutal desigualdade de rendas, que contrasta níveis inacreditáveis de desperdício com situações constrangedoras de miséria.  Quero esclarecer que, ao falar em desperdício, me refiro expressamente ao estilo de vida dos países chamados “desenvolvidos”, nos quais 1/3 dos alimentos produzidos são simplesmente jogados no lixo.  Conheço em São Paulo condomínios de 1.100 m.2 com 10 vagas na garagem, habitados por 2 pessoas.  Hoje podemos falar de fortunas pessoais de bilhões de dólares e, delas derivadas, dos “bens posicionais”, de altíssimo custo e reduzida utilidade, cuja principal missão é conferir “status” aos que os ostentam. Sabemos que 35 milhões de pessoas não têm acesso à água potável; o que talvez nem todo mundo saiba é que os sistemas de distribuição de nossas cidades desperdiçam, em média, cerca de 40% da água que deveriam fornecer. Pensando no coronavirus, como entender que países que, nas últimas décadas, gastaram trilhões de dólares em poderio militar,  não tiveram o cuidado elementar de preparar-se para uma pandemia como a atual, cujos estragos superam os causados por muitas guerras?  Um dado assustador: morrem no mundo, por ano, 500.000 crianças e adolescentes por falta de medidas de higiene pública.  Só no Brasil, quase 50% das casas não têm esgoto! O que não impede o país de figurar entre os maiores mercados mundiais de artigos de luxo e bebidas de alto preço.

Outra macrotendência é uma nova escala de prioridades sociais que elegerá para os primeiros postos a saúde, a educação, o bem-estar e – por que não? – a longevidade. Tirando de cena as guerras mundiais – das quais ninguém sairia ganhando – teremos um aumento fabuloso na disponibilidade de recursos para causas nobres, nas quais todos têm a ganhar, e muito!  A pandemia está promovendo a saúde para o primeiro lugar dessas novas prioridades e, no pós-crise, ela terá a educação e a redução da pobreza como companheiras no pódio.  Em resumo: acredito firmemente, sem otimismo  ingênuo porque apoiado em dados concretos, que uma sociedade interconectada, na qual a grande maioria será formada por gente de bem, não tolerará a convivência com os problemas que nos afligem hoje,  mesmo porque eles já estão bem diagnosticados e recursos para resolvê-los existem ex abundantia.                                                               

A que recursos estou me referindo? A filantropia já é uma nova “onda”. Só no Brasil, as doações de empresas e pessoas para o combate à pandemia já superaram os 5 bilhões de reais.  Nos EUA, um dos empresários mais ricos do mundo, Bill Gates, fundador da Microsoft, desenvolve um trabalho permanente de apelo aos demais bilionários para que doem – em  vida – metade  de sua fortuna para  obras sociais.  Seus apelos já receberam respostas muito animadoras de perto de 200 magnatas.  Não esquecer que a filantropia, ainda que praticada com quantias modestas, é um grande passo em direção à solidariedade. Além disso, superados os desvarios armamentistas ainda provocados por vários líderes, vão “sobrar”, só do item “defesa”, cerca de US$ 1,5 trilhão por ano.  A taxação de grandes fortunas é um projeto que casa bem tanto com a ética como com a lógica. Imagine que, num passe de mágica, os governos autorizassem a ONU a desapropriar, sem uso da guilhotina, os trilhões de dólares escondidos nos paraísos fiscais, vinculando seu destino a ações sociais.  Adeus, pobreza!

Hoje, as decisões continuam fortemente influenciadas pelos interesses econômicos, mas estamos transitando para o período em que a Ética e a Lógica – irmãs gêmeas – vão impor-se como as melhoras orientações para nossa vida em uma sociedade dominada pela consciência moral, pela razão e pela solidariedade.

Ética e Lógica trabalham em campos diferentes, mas se completam à perfeição. Uma cultura de autoritarismo exacerbado importará, sem qualquer dúvida, em desrespeito à dignidade das pessoas, o que ofende a Ética. Mas esse modelo de exercício de poder gera seus próprios antígenos e com o tempo – por uma questão de Lógica – as pessoas de boa formação se recusarão a trabalhar em um ambiente desse tipo, inviabilizando sua continuidade. Não se pode negar que, às vezes, a Lógica pode ter uso estranho. É o caso de um desembargador que requereu “justiça gratuita”, em um processo de que era parte, alegando que tinha 5 filhos com 5 esposas!

Questões há que não envolvem diretamente a Ética, mas se ajustam pela Lógica: “morrer de trabalhar”, por exemplo, quando o ganho já não é tão importante.  No caso mais prático do transporte individual, faz sentido alguém que pese 70 ou 80 quilos usar uma máquina que tem 1 ou 2 toneladas de peso e passa 95% do tempo estacionada em algum lugar? 

A Ética nos ensina que a globalização e o compartilhamento são tendências irreversíveis. Das 100 maiores empresas de hoje, 70 são multinacionais. Mais de 260 milhões de pessoas já vivem fora de seus países de nascimento. A Lógica nos demonstra que muitos de nossos problemas, como o aquecimento global, a poluição dos oceanos, a pobreza extrema, a migração descontrolada, as grandes crises etc. só podem ser resolvidos pela ação conjunta de todos os países. E a crise do coronavirus não deixa margem para dúvidas a respeito! Mais uma mudança a celebrar: o novo propósito do IBGC é “uma governança melhor para uma sociedade melhor”.  E o que podemos considerar uma “governança melhor?  Na minha concepção, uma gestão empresarial no estado da arte e fortalecida  pelos   princípios da Ética e da Lógica.

Lelio Lauretti perfil

Lélio Lauretti

Economista, com cursos de especialização em Mercado de Capitais (Fundação Getúlio Vargas – S.Paulo) e Administração para Sócios-Presidentes (Harvard Business School – Boston). Sócio-fundador e professor do Instituto Brasileiro de Governança  Corporativa.